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Apodemus sylvaticus. Fotografia de Maílis Carrilho.

No âmbito do seu doutoramento, a investigadora do CE3C, Maílis Carrilho, desenvolveu um novo estudo que analisa a forma como diferentes condições de cativeiro influenciam o comportamento e o sucesso de recaptura de ratos-do-campo (Apodemus sylvaticus) após a sua libertação no meio natural.

O artigo “Influence of caging conditions on captive behaviour and recapture rates of wild wood mice”, parte de uma questão central na investigação com animais selvagens: até que ponto as condições em que estes são mantidos em cativeiro, podem afetar o seu comportamento e a sua sobrevivência quando regressam à natureza.

Para responder a esta questão, Maílis Carrilho analisou a forma como os ratos selvagens se adaptam às condições laboratoriais, integrando, pela primeira vez, uma abordagem conjunta de parâmetros fisiológicos e comportamentais. Ao longo de quatro semanas, foram avaliados vários indicadores, nomeadamente hormonas de stress, massa corporal, comportamentos repetitivos (ou comportamentos estereotipados), construção de ninhos e traços de personalidade.

Durante a parte experimental, avaliei como estes animais reagem ao cativeiro de curta duração. Os resultados indicaram que, ao longo de algumas semanas, os ratos conseguem adaptar-se, mostrando redução de stress e aumento de peso. No entanto, também surgiram algumas alterações comportamentais, como comportamentos repetitivos, que podem ser estratégias para lidar com o ambiente artificial em que são mantidos”.

Maílis Carrilho

Fotografia de Maílis Carrilho

Ainda no âmbito do seu doutoramento, a investigadora avaliou também o impacto das condições do cativeiro no comportamento e no sucesso de reintegração na natureza. Para além disso, utilizou a prevalência e diversidade de parasitas como indicador da saúde dos animais, não tendo sido encontradas diferenças relevantes causadas pelo cativeiro. Os resultados demonstraram que, em condições em que os animais têm acesso a alguns recursos naturais (enriquecimento ambiental), a ansiedade e os sinais de stress são reduzidos temporariamente, sem que isso impeça a adaptação ao cativeiro.

No geral, os resultados mostram que mesmo períodos curtos em cativeiro têm efeitos nos animais, mas que estes conseguem ajustar-se até certo ponto. O trabalho destaca a importância de melhorar os métodos de investigação com animais selvagens, garantindo o seu bem-estar e aumentando a qualidade dos resultados científicos, ao mesmo tempo que reduz riscos quando os animais são devolvidos à natureza."

Maílis Carrilho

Para além da componente experimental, o trabalho da investigadora incluiu também uma análise crítica do enquadramento legal europeu, nomeadamente da Diretiva 2010/63/UE, que regula a utilização de animais para fins científicos.

"Embora a legislação europeia (Diretiva 2010/63/EU) estabeleça regras para proteger animais de laboratório, existem poucas orientações específicas para animais selvagens capturados temporariamente. A revisão que fiz de estudos científicos mostrou que, apesar de haver mais referência a autorizações éticas após a implementação da diretiva, ainda falta informação clara sobre cuidados, alojamento e métodos utilizados, revelando a necessidade de maior transparência e melhores práticas”

Maílis Carrilho


Os resultados desta tese salientam a necessidade de se considerar simultaneamente o bem-estar animal e a qualidade científica dos estudos. Ao evidenciar a complexidade da adaptação dos animais selvagens ao cativeiro e ao identificar limitações nas práticas atuais, o trabalho de Maílis Carrilho fornece orientações valiosas para o desenvolvimento de protocolos de investigação com fauna selvagem mais éticos, consistentes e informados.

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