Um estudo recentemente publicado sobre os mecanismos que regulam a ovulação em Drosophila, contou com a participação do investigador Alisson Gontijo, do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, que liderou a equipa do centro envolvida nesta investigação internacional.
A ovulação é um processo natural que permite a saída de um oócito maduro do ovário, para que posteriormente possa ser fertilizado, sendo por isso um fenómeno essencial para a reprodução. Em Drosophila, este processo é tipicamente induzido pelo acasalamento, embora possa também ocorrer espontaneamente em fêmeas virgens, com grande variabilidade entre populações naturais.
Na natureza, as populações naturais de Drosophila melanogaster apresentam diferenças drásticas na fisiologia dos ovários, incluindo nas taxas de ovulação espontânea: ovular espontaneamente cedo e de forma abundante é o seu estado ancestral, e é a característica predominante em climas e estações mais quentes. No entanto, os mecanismos moleculares subjacentes a esta ovulação espontânea permaneciam pouco compreendidos.
Isto levou uma equipa de investigadores a estudar a via de sinalização que envolve um peptídeo produzido pelo ovário (relaxina/peptídeo semelhante à insulina Dilp8) e o seu recetor Lgr3.
Estamos interessados em compreender como os neurónios atuam de forma coordenada para construir circuitos que controlam comportamentos, e como as hormonas e os neuropeptídeos modulam esses circuitos”.
Alisson Gontijo
Os investigadores demonstraram que a inibição deste peptídeo ou do seu recetor, quer nas células foliculares do ovário, quer em neurónios específicos, respetivamente, provoca um atraso da ovulação, e uma diminuição da velocidade do óvulo na sua passagem pelo oviduto (o equivalente à trompa de Falópio) para o útero. A atividade do peptídeo semelhante à relaxina Dilp8, facilita a ovulação e eventual postura de ovos derivados de oócitos armazenados e envelhecidos, que produzem óvulos de menor qualidade e viabilidade. Esta eliminação espontânea e contínua de oócitos envelhecidos promove, uma ótima qualidade dos óvulos quando as fêmeas são eventualmente fertilizadas.
Os resultados indicam também que a atividade promotora da ovulação é evidente em moscas virgens, que ovulam e põem ovos espontaneamente, mas não é clara em fêmeas acasaladas, o que sugere que esta função da via Dilp8-Lgr3 é em grande parte anulada pelo acasalamento.
Este estudo fornece, assim, uma base molecular para compreender como o tempo de retenção dos oócitos é regulado, destacando a importância da comunicação entre os sistemas reprodutor e nervoso. Este estudo reforça ainda que o papel da sinalização da relaxina na fisiologia reprodutiva é altamente conservado na evolução animal e realça a importância e a complexidade do controlo da ovulação espontânea em Drosophila.
Segundo o investigador Alisson Gontijo , o próximo passo nesta linha de investigação será compreender como o Dilp8 e o Lgr3 se ligam aos circuitos neuronais que controlam a ovulação, e como as suas funções são anuladas após o acasalamento.
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