Um estudo desenvolvido em colaborção entre o CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e o LEAF – Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food, do Instituto Superior de Agronomia, mostra que a presença de plantas mediterrânicas nas margens das vinhas pode favorecer o controlo biológico de pragas, ao promover a conservação de organismos benéficos. A investigação foi realizada em vinhas biológicas da Herdade do Esporão, no Alentejo.
O trabalho, publicado recentemente na revista Agricultural and Forest Entomology, foi liderado por Renata Santos, doutoranda do CE3C e do LEAF e primeira autora do estudo, e contou ainda com a participação das investigadoras do CE3C Patrícia Garcia Pereira e Sara Magalhães, coordenadora da unidade de investigação, e da investigadora do LEAF Elisabete Figueiredo.
A investigação analisou a abundância de três grupos de inimigos naturais frequentemente associados à regulação de pragas agrícolas: vespas parasitoides (pequenas vespas cujas larvas se desenvolvem à custa de outros artrópodes), aranhas e ácaros predadores. Estes organismos estão associados ao controlo de pragas da vinha, como a cigarrinha-verde e os ácaros fitófagos, contribuindo para reduzir a dependência de tratamentos fitofarmacêuticos e reforçar a sustentabilidade da produção vitivinícola
[o principal objetivo deste trabalho foi] compreender o impacto do habitat envolvente e de espécies de plantas nativas do Mediterrâneo nas populações de artrópodes benéficos na vinha".
Renata Santos
Os resultados mostram que diferentes espécies de plantas mediterrânicas estão associadas a diferentes abundâncias destes organismos ao longo do ano. A tamargueira (Tamarix africana) e o lentisco (Pistacia lentiscus) destacaram-se por albergar elevadas abundâncias de vespas parasitoides e aranhas durante a primavera e o verão.
O estudo mostrou ainda que a vegetação rasteira das margens pode hospedar elevadas abundâncias de vespas parasitoides e aranhas durante o inverno, sugerindo que diferentes componentes da vegetação podem desempenhar papéis complementares na manutenção destes organismos ao longo das estações.
No caso dos ácaros predadores, os investigadores observaram abundâncias mais elevadas em parcelas de vinha localizadas junto de margens biodiversas do que em parcelas rodeadas apenas por outras vinhas. Estes organismos são importantes inimigos naturais de ácaros fitófagos, pequenos ácaros que se alimentam dos tecidos das plantas e podem causar prejuízos em culturas como a vinha.
Por outro lado, a distância às margens não teve um efeito consistente na abundância dos inimigos naturais dentro da vinha. Segundo os autores, este resultado sugere que a influência da vegetação seminatural pode depender não apenas da proximidade imediata, mas também das características da paisagem agrícola envolvente.
O estudo foi desenvolvido em colaboração com a Herdade do Esporão e contribui para o aumento do conhecimento sobre a gestão da vegetação que rodeia as vinhas em paisagens agrícolas mediterrânicas.
Instalar plantas mediterrânicas como a tamargueira e o lentisco em sebes na periferia das vinhas pode ser uma medida útil para apoiar estes organismos benéficos, sobretudo em períodos críticos do ano."
Renata Santos
Num país onde a vinha faz parte da paisagem e da identidade cultural, este estudo mostra que a vegetação das margens pode desempenhar um papel relevante na manutenção das comunidades de organismos que contribuem para o equilíbrio ecológico destes sistemas agrícolas.
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