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Fotografia de Leonardo Cotts

Um novo estudo liderado pelo investigador do CE3C Leonardo Cotts documenta pela primeira vez a ocorrência de leucismo em jacarés-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), trazendo contributos relevantes para o conhecimento da biologia e conservação da espécie.

O jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) é uma espécie da ordem dos crocodilos (Crocodylia) caracterizada pela sua coloração verde-acastanhada e ventre amarelado, não existindo até agora quaisquer registos de anomalias cromáticas nesta espécie. O trabalho liderado por Leonardo Cotts descreve pela primeira vez, um indivíduo com leucismo, uma condição genética rara que resulta na perda parcial de pigmentação, e confere ao animal uma coloração esbranquiçada.

Diferente de indivíduos albinos, têm ausência total de pigmentos no corpo, o leucismo pode apresentar ausência em algumas regiões, mas pigmentos presentes e em níveis muito baixos em outras. Está vendo os olhinhos dele? São escuros, mantendo ainda a coloração, enquanto albinos frequentemente apresentam uma coloração avermelhada, devido à ausência de pigmentação na íris, tornando-a translúcida e permitindo a visualização dos vasos sanguíneos na região da retina”.


Leonardo Cotts

Fotografia de Leonardo Cotts

Para além de ser a primeira da sua espécie a ser documentada, esta fêmea juvenil de Caiman latirostris é também apenas o terceiro caso documentado de desordem cromática no género Caiman a nível mundial.  Os autores salientam que a ausência de registos anteriores de leucismo poderá dever-se à baixa sobrevivência destes indivíduos em estado selvagem, dado que a coloração clara pode aumentar a vulnerabilidade à predação, dificultar a reprodução e conduzirr à exclusão social.

Neste estudo, os autores discutem a ocorrência de alterações cromáticas brancas em indivíduos da ordem Crocodylia ao longo do tempo, incluindo casos de albinismo, leucismo e piebaldismo noutras espécies, como o aligátor-americano (Alligator mississippiensis).  Embora raras, estas condições têm sido associadas a fatores genéticos e ambientais, como a poluição, a fragmentação de habitat e o isolamento populacional, pelo que têm o potencial de serem utilizadas como bioindicadores.

O jacaré leucístico que examinamos foi encontrado em uma estação de tratamento de esgoto de Balneário Camboriú, SC, Brasil, e posteriormente foi encaminhado para o Zoológico de Balneário Camboriú (Complexo Cyro Gevaerd). Ele foi submetido a nossa avaliação morfológica, onde confirmamos a sua desordem cromática e avaliamos o seu escore de condição corporal, para compreender se encontrava-se saudável no momento da captura”.


Leonardo Cotts

A presença de indivíduos com pigmentação anómala, como este jacaré leucístico, tem sido observada em áreas sujeitas a uma forte pressão humana, o que sugere uma possível ligação entre o stress ambiental e as alterações genéticas. No caso agora descrito, o facto de o animal ter sido encontrado num ambiente urbano reforça esta hipótese.

O estudo conclui defendendo a importância de monitorizar sistematicamente a ocorrência deste tipo de animais com alterações na cor, especialmente em espécies que coexistem em ambientes antropogénicos. Registar estes casos pode ajudar a identificar sinais precoces sobre o estado de saúde dos ecossistemas e compreender melhor como as atividades humanas estão a afetar a biodiversidade.

Os animais com colorações anômalas registados podem servir como bioindicadores de alterações ambientais, indicando regiões potencialmente impactadas e nos ajudando em investigações de diferentes perfis, principalmente ecológicas e conservacionistas."


Leonardo Cotts

 

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