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Priolo (Pyrrhula murina). Fotografia de Ricardo Jorge Lopes

Nas encostas húmidas da zona leste da ilha de São Miguel, onde a Floresta de Laurissilva ainda resiste como um testemunho vivo de tempos antigos, vive uma das aves mais raras da Europa, exclusiva dos Açores: o Priolo (Pyrrhula murina). Discreto e dependente deste ecossistema único dos Açores, o Priolo tornou-se um verdadeiro símbolo da fragilidade e da recuperação da biodiversidade insular.

No início do século XX, a espécie era já extremamente rara, confinada aos vales montanhosos do leste de São Miguel, na sequência da perda e fragmentação do seu habitat. Chegou mesmo a ser considerada praticamente extinta, até finalmente ter sido alvo de iniciativas científicas na última década do século passado. Desde então, o seu destino tem estado intimamente ligado aos esforços de conservação da Floresta de Laurissilva.

Agora, a história desta espécie entra num novo capítulo. O seu genoma de referência foi finalmente mapeado com elevada resolução. Este avanço representa um marco importante para o conhecimento científico sobre a espécie.

O estudo, recentemente publicado na plataforma Open Research Europe, foi liderado por Ricardo Jorge Lopes, investigador do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Este avanço científico integra-se na iniciativa ERGA (European Reference Genome Atlas), que têm como objetivo construir uma verdadeira biblioteca genética da biodiversidade europeia e foi co-financiado pelo projeto europeu Biodiversity Genomics Europe (BGE). No caso do Priolo, esse esforço traduziu-se num mapa genómico de alta qualidade ao nível cromossómico — uma reconstrução muito detalhada e quase completa do seu ADN, organizado cromossoma a cromossoma. Esta ferramenta vai permitir estudar com grande precisão a biologia da espécie, bem como compreender a sua história evolutiva, fornecendo informação fundamental para apoiar a sua conservação.

O investigador Ricardo Jorge Lopes. Fotografia de CIÊNCIAS

O trabalho começou no terreno com a captura e a recolha de sangue de uma fêmea adulta. Esta fase contou com o apoio essencial da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA Açores), cuja colaboração logística no terreno foi determinante. Um exemplo claro de como a investigação científica e as organizações de conservação trabalham lado a lado na proteção da biodiversidade.

Após décadas de esforços de conservação, o priolo passou da categoria de “Criticamente Em Perigo” para “Vulnerável”, com uma população atualmente estimada em cerca de 1.000 indivíduos. Ainda assim, mantém uma reduzida variabilidade genética, o que continua a representar um desafio para a sua sobrevivência a longo prazo.

É aqui que este novo recurso genómico assume um papel crucial. Esta ferramenta vai orientar a análise da informação genética que temos recolhido ao longo das últimas duas décadas, permitindo monitorizar a diversidade genética da população ao longo do tempo, compreender os processos históricos de declínio populacional e isolamento que levaram à atual reduzida variabilidade genética da espécie. A longo prazo vai apoiar estratégias de gestão mais eficazes, quer da espécie, quer do restauro do habitat, por parte da SPEA Açores e do Governo Regional dos Açores"

Ricardo Jorge Lopes

O genoma de referência foi baseado numa amostra de sangue desta fêmea de Priolo, que foi depois libertada de volta ao seu meio natural. Fotografia de Ricardo Jorge Lopes

Ao reconstruir estes padrões ao longo da história evolutiva do Priolo, será possível ganhar uma visão mais clara sobre como a espécie respondeu a pressões ambientais passadas e, assim, garantir melhores condições para a sua continuidade no seu habitat natural.

As amostras de sangue que serviram de base a este trabalho encontram-se depositadas no MUHNAC, em Lisboa, assegurando assim a preservação dos recursos genómicos da Biodiversidade Portuguesa em instituições portuguesas, como testemunho científico para futuras gerações.

Num cenário global em que tantas espécies desaparecem antes de serem plenamente compreendidas, o Priolo ganha, com este mapa genómico, uma nova forma de persistir: não apenas na paisagem da Laurissilva açoriana, mas também no próprio código que guarda a sua história.

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