Nas encostas húmidas da zona leste da ilha de São Miguel, onde a Floresta de Laurissilva ainda resiste como um testemunho vivo de tempos antigos, vive uma das aves mais raras da Europa, exclusiva dos Açores: o Priolo (Pyrrhula murina). Discreto e dependente deste ecossistema único dos Açores, o Priolo tornou-se um verdadeiro símbolo da fragilidade e da recuperação da biodiversidade insular.
No início do século XX, a espécie era já extremamente rara, confinada aos vales montanhosos do leste de São Miguel, na sequência da perda e fragmentação do seu habitat. Chegou mesmo a ser considerada praticamente extinta, até finalmente ter sido alvo de iniciativas científicas na última década do século passado. Desde então, o seu destino tem estado intimamente ligado aos esforços de conservação da Floresta de Laurissilva.
Agora, a história desta espécie entra num novo capítulo. O seu genoma de referência foi finalmente mapeado com elevada resolução. Este avanço representa um marco importante para o conhecimento científico sobre a espécie.
O estudo, recentemente publicado na plataforma Open Research Europe, foi liderado por Ricardo Jorge Lopes, investigador do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Este avanço científico integra-se na iniciativa ERGA (European Reference Genome Atlas), que têm como objetivo construir uma verdadeira biblioteca genética da biodiversidade europeia e foi co-financiado pelo projeto europeu Biodiversity Genomics Europe (BGE). No caso do Priolo, esse esforço traduziu-se num mapa genómico de alta qualidade ao nível cromossómico — uma reconstrução muito detalhada e quase completa do seu ADN, organizado cromossoma a cromossoma. Esta ferramenta vai permitir estudar com grande precisão a biologia da espécie, bem como compreender a sua história evolutiva, fornecendo informação fundamental para apoiar a sua conservação.
O trabalho começou no terreno com a captura e a recolha de sangue de uma fêmea adulta. Esta fase contou com o apoio essencial da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA Açores), cuja colaboração logística no terreno foi determinante. Um exemplo claro de como a investigação científica e as organizações de conservação trabalham lado a lado na proteção da biodiversidade.
Após décadas de esforços de conservação, o priolo passou da categoria de “Criticamente Em Perigo” para “Vulnerável”, com uma população atualmente estimada em cerca de 1.000 indivíduos. Ainda assim, mantém uma reduzida variabilidade genética, o que continua a representar um desafio para a sua sobrevivência a longo prazo.
É aqui que este novo recurso genómico assume um papel crucial. Esta ferramenta vai orientar a análise da informação genética que temos recolhido ao longo das últimas duas décadas, permitindo monitorizar a diversidade genética da população ao longo do tempo, compreender os processos históricos de declínio populacional e isolamento que levaram à atual reduzida variabilidade genética da espécie. A longo prazo vai apoiar estratégias de gestão mais eficazes, quer da espécie, quer do restauro do habitat, por parte da SPEA Açores e do Governo Regional dos Açores"
Ricardo Jorge Lopes
Ao reconstruir estes padrões ao longo da história evolutiva do Priolo, será possível ganhar uma visão mais clara sobre como a espécie respondeu a pressões ambientais passadas e, assim, garantir melhores condições para a sua continuidade no seu habitat natural.
As amostras de sangue que serviram de base a este trabalho encontram-se depositadas no MUHNAC, em Lisboa, assegurando assim a preservação dos recursos genómicos da Biodiversidade Portuguesa em instituições portuguesas, como testemunho científico para futuras gerações.
Num cenário global em que tantas espécies desaparecem antes de serem plenamente compreendidas, o Priolo ganha, com este mapa genómico, uma nova forma de persistir: não apenas na paisagem da Laurissilva açoriana, mas também no próprio código que guarda a sua história.
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