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Desmond Morris (1928–2026). Fotografia de Nationaal Archief.

Desmond Morris, o renomado zoólogo e etólogo britânico mundialmente conhecido pela sua obra “O Macaco Nu” (The Naked Ape, 1967), faleceu a 19 de abril de 2026, aos 98 anos. Publicado num contexto de contracultura, o livro foi um best-seller que propôs olhar para o Homo sapiens como mais um primata no reino animal, focando-se em comportamentos instintivos (como agressão, sexo, alimentação e interação social) em detrimento de explicações dogmáticas, culturais ou religiosas.

Embora tenha sido uma obra inovadora por divulgar a biologia evolutiva, é hoje vista como algo datada, sendo criticada pelo seu determinismo biológico rígido e por ignorar a complexidade social em favor de instintos primitivos e por carecer parcialmente de suporte científico contemporâneo. Por exemplo, Morris sugeriu que o batom vermelho simularia a cor dos genitais femininos durante o estro, servindo como um sinal sexual para atrair machos, uma vez que os humanos perderam os sinais genitais externos visíveis. Outra tese célebre foca-se no facto de a mulher ser o único primata com seios desenvolvidos fora do período de lactação; Morris propôs que estes evoluíram para imitar as nádegas (com a transição para a marcha bípede e o contacto face a face) como sinal de maturidade e atração. Também a antropologia contemporânea e a arqueologia moderna consideram a dicotomia rígida "homem caçador / mulher cuidadora" obsoleta e um reflexo dos preconceitos de género do século XX.

Para além de “O Macaco Nu”, Morris escreveu dezenas de outros livros de grande relevo zoológico, etológico ou sociológico. Entre os que considero mais emblemáticos, destacam-se:
• “O Zoo Humano” (The Human Zoo, 1969): - analisa as sociedades modernas como "jaulas" que causam stress e comportamentos anormais, comparando os humanos a animais em cativeiro;
• “A Linguagem do Corpo” (Manwatching, 1977) - um guia fundamental sobre a comunicação não-verbal, detalhando como gestos e expressões revelam as nossas intenções;
• “O Contrato Animal” (The Animal Contract, 1990) - onde discute a nossa responsabilidade ética perante o mundo animal e a preservação da biodiversidade;
• “Guia essencial do comportamento do Bebé” (Babywatching, 1991) - foca-se no desenvolvimento humano desde o nascimento, explicando as incríveis capacidades de evolução dos recém-nascidos;
• “A Tribo do Futebol” (The Soccer Tribe, 1981) - obra onde descreve o futebol como um ritual tribal moderno, vendo o estádio como o novo campo de caça e os adeptos como uma tribo com ritos ancestrais (a recente edição pela Arte e Ciência de 2018 possui prefácio de José Mourinho).

Para além da ciência, Morris foi ainda um talentoso pintor surrealista, área onde explorou o seu lado mais imaginativo. Embora algumas das suas teses não tenham resistido ao tempo, o seu inequívoco mérito permanece: o convite constante para analisarmos a nossa natureza animal sem tabus.

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