Um estudo internacional conduzido por investigadores do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C e, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, revela que os girinos conseguem ajustar a alimentação para responder ao aumento da temperatura da água, mas que essa estratégia tem limites. À medida que o aquecimento se intensifica, a capacidade de compensar os seus efeitos através da alimentação torna-se progressivamente menos eficaz.
Publicado na revista Scientific Reports, o trabalho é o primeiro a demonstrar, em vertebrados, que a capacidade de compensar os efeitos do aumento da temperatura através da alimentação é condicionada por limitações fisiológicas. O estudo foi desenvolvido por uma equipa do CE3C composta por Sara Bento, Joana Martelo, Maria F. Magalhães, Pedro P. Sousa, João Caramelo, Joana Vilas Boas, Vladimíra D. Carreira, Rui Rebelo e Bruno M. Carreira, em colaboração com os investigadores Pavel Kratina, da Queen Mary University of London (Reino Unido), Richard Svanbäck e Anssi Laurila da Universidade de Uppsala (Suécia).
A investigação centrou-se no sapo-comum (Bufo spinosus), uma espécie amplamente distribuída em Portugal. Tal como os peixes, os répteis e os insetos, os sapos são animais ectotérmicos, o que significa que a sua temperatura corporal depende diretamente da temperatura ambiente. Por isso, alterações na temperatura da água podem ter efeitos profundos no seu crescimento, desenvolvimento e sobrevivência.
Para perceber de que forma a alimentação influencia a resposta destes animais ao aquecimento, os investigadores criaram girinos recolhidos na Serra de Sintra sob diferentes condições de temperatura e alimentação.
Os resultados mostram que os girinos respondem ativamente ao aumento da temperatura. Quando têm acesso a diferentes tipos de alimento, ajustam a composição da dieta em função da temperatura e alimentam-se de forma seletiva. Esta estratégia permite-lhes atenuar alguns dos efeitos negativos do aquecimento, embora apenas de forma parcial.
Este é o primeiro estudo deste género realizado em vertebrados e mostra que os girinos conseguem ajustar a sua alimentação em função da temperatura".
Sara Bento
O aquecimento acelerou fortemente o desenvolvimento dos animais. Nos tratamentos experimentais de 12 °C, 16 °C e 20 °C, o período larvar diminuiu progressivamente, passando de cerca de 177 dias nas condições mais frias para apenas 30 dias nas mais quentes. Contudo, este desenvolvimento mais rápido teve custos: os indivíduos que completaram a metamorfose a temperaturas mais elevadas apresentaram menor massa corporal e pior condição física do que aqueles que cresceram a temperaturas mais frias.
Curiosamente, nem todas as características responderam da mesma forma. Enquanto a massa corporal e a condição física diminuíram significativamente com o aumento da temperatura, o comprimento corporal à metamorfose sofreu poucas alterações, sugerindo que há uma prioridade biológica na manutenção de um determinado tamanho, mesmo sob condições mais exigentes.
Em temperaturas mais baixas os girinos incorporam uma maior proporção de alimento de origem animal na dieta, enquanto que em temperaturas mais elevadas aumentam o consumo de matéria vegetal e a taxa de consumo. No entanto, verificámos que esta estratégia se torna progressivamente menos eficaz à medida que as temperaturas aumentam".
Sara Bento
O estudo revelou ainda um resultado pouco comum: as temperaturas mais elevadas alteraram a composição elementar dos tecidos dos jovens sapos após a metamorfose. Esta alteração sugere que o aquecimento não afeta apenas o crescimento e o desenvolvimento, mas também a forma como os organismos processam e armazenam nutrientes.
As implicações desta descoberta vão além dos anfíbios. Os resultados ajudam a compreender de que forma o aquecimento global pode alterar as interações alimentares entre espécies e influenciar o funcionamento dos ecossistemas aquáticos. Ao modificar a composição dos tecidos corporais, o aumento da temperatura poderá também alterar o valor energético destes animais enquanto presas, produzindo efeitos em cascata nas cadeias alimentares.
Numa região particularmente vulnerável às alterações climáticas como a mediterrânica, os investigadores defendem que a preservação de refúgios térmicos em zonas húmidas e outros ecossistemas de água doce poderá desempenhar um papel importante na proteção dos anfíbios e de muitas outras espécies aquáticas.
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