Fotografia de Artur Serrano
Um estudo publicado pelos investigadores do cE3c, Artur Serrano e Carlos Aguiar, descreve duas novas espécies de escaravelhos carabídeos subterrâneos para Portugal, pertencentes ao género Parareicheia, um grupo endémico da Península Ibérica. A primeira espécie deste género foi descrita de Portugal por René Jeannel em 1957 (P. nevesi) e agora, quase 70 anos mais tarde, foram encontradas mais duas.
Os autores deste trabalho dedicam-se ao estudo dos Coleópteros Carabídeos endógeos desde a década de noventa, tendo descrito a 1ª espécie nova para a ciência no âmbito do Projecto iniciado em 1997 e intitulado 'Estudo das Comunidades da Fauna e da Flora da Estação de Campo do Centro de Biologia Ambiental' na Serra de Grândola".
Artur Serrano, investigador do CE3C
As novas espécies, Parareicheia renei sp. nov. e Parareicheia barrosi sp. nov., distinguem-se pelas suas adaptações a ambientes subterrâneos, incluindo a ausência de olhos funcionais (microftalmia) e de asas (apteria), características típicas de organismos que evoluíram em habitats com défice parcial ou mesmo total de luz.
A espécie Parareicheia renei sp. nov. foi dedicada a René Jeannel, um destacado zoólogo e entomólogo francês que descreveu pela primeira vez uma espécie deste género na Península Ibérica. A nova espécie exibe pequenas dimensões (cerca de 2,03 mm), um corpo alongado e uma coloração amarelo-avermelhada.
Parareicheia barrosi sp. nov. presta homenagem a José Maximiano Correia de Barros, naturalista português que, fora do meio académico formal, contribuiu significativamente para o estudo dos coleópteros nacionais no final do século XIX e início do século XX. Este escaravelho é ligeiramente maior (2,48-2,54mm), possuindo um corpo robusto de uma cor castanho-avermelhada.
Os dados recolhidos sugerem que ambas as espécies têm distribuições extremamente limitadas. Parareicheia renei sp. nov. foi encontrada num habitat antropogénico dominado por eucaliptos, com vegetação composta por briófitos, gramíneas e arbustos. Apesar de terem sido realizadas várias sessões de amostragem entre 2018 e 2025, não foram encontrados mais exemplares desta espécie para além daquele com que foi baseada a sua descrição original, o que sugere que poderá tratar-se de uma espécie rara.
Já Parareicheia barrosi sp. nov. foi localizada no distrito de Vila Real numa pequena mancha de vegetação dominada por carvalhos e medronheiros, com várias espécies arbustivas típicas do norte de Portugal. As amostragens realizadas em 2024 e 2025 em vários locais deste distrito confirmaram a sua presença apenas naquela área.
Estes "Tesouros enterrados", como os autores os designam, proporcionaram a descoberta e descrição até agora de 40 espécies novas para a ciência destes Coleópteros, a grande maioria endémicas de Portugal. As 2 novas espécies agora descritas incluem-se neste já longo percurso temporal."
Dada a ausência de registos adicionais, os autores consideram, de forma provisória, que ambas as espécies são endémicas de Portugal.
Para além da descrição detalhada destas duas novas espécies, o estudo fornece imagens anatómicas que permitem a sua identificação, e inclui uma chave dicotómica atualizada para o género Parareicheia. São também apresentadas notas ecológicas que ajudam a compreender melhor os habitats destas espécies.
A caracterização destas novas espécies evidencia a importância da investigação taxonómica em ecossistemas ainda pouco explorados. A raridade e distribuição restrita destes organismos sublinham também a necessidade de conservação dos ecossistemas subterrâneos.
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