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Investigadores do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) colideraram um estudo internacional, publicado recentemente na revista Landscape and Urban Planning, que analisa o impacto de soluções de planeamento urbano na redução do stress térmico em cidades. O trabalho foca-se na Área Metropolitana de Lisboa, que concentra 27% da população portuguesa, e em Islamabad (Paquistão), evidenciando tanto o potencial como os limites das chamadas soluções baseadas na natureza.

O trabalho, que contou com participação dos investigadores do CE3C Tiago Capela Lourenço e Inês Gomes Marques, demonstra que intervenções como o aumento de áreas verdes, a plantação de árvores e a remoção de superfícies impermeabilizadas podem reduzir significativamente o stress térmico das populações urbanas, em alguns casos diminuindo a sua exposição em até 40% menos dias com condições de calor extremo. Estes efeitos resultam sobretudo da criação de sombra e da redução da temperatura das superfícies urbanas. Os resultados mostram também que diferentes estratégias produzem impactos distintos:

  • Durante o dia: As árvores são particularmente eficazes na redução das temperaturas diurnas, quando ocorrem em áreas alargadas e contínuas (até cerca de 0,5°C),
  • Durante a noite: A remoção de superfícies impermeabilizadas (como betão e asfalto) tem maior efeito na redução das temperaturas noturnas. Esta medida reduz entre 10% e 20% o número de dias com stress térmico, beneficiando um maior número de pessoas e sendo crucial para travar a perda de sono associada às ondas de calor,
  • Os benefícios tendem a ser localizados, diminuindo rapidamente fora das áreas intervencionadas.

Estas estratégias não foram apenas teóricas, as soluções foram cocriadas ao longo de três anos com um grupo diversificado de stakeholders. O processo envolveu representantes dos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa, especialistas do setor da governação climática, e académicos, reforçando a importância de abordagens participativas para garantir eficácia e aceitação social.

Apesar dos resultados positivos, os investigadores alertam para um ponto crítico: as soluções baseadas na natureza, por si só, não são suficientes para compensar os impactos futuros das alterações climáticas, especialmente  face às políticas atuais. Ou seja, embora essenciais, estas medidas apenas atenuam parcialmente o agravamento do calor urbano projetado.

O estudo mostra que o planeamento urbano inteligente pode fazer uma diferença real na qualidade de vida das populações urbanas, mas também evidencia que existem limites claros à adaptação. Reduzir emissões e travar o aquecimento global continua a ser fundamental"

 

Tiago Capela Lourenço

Os resultados têm implicações diretas para políticas públicas, indicando que:

  • As intervenções devem ser priorizadas em zonas densamente povoadas,
  • O planeamento urbano deve integrar soluções verdes e azuis de forma estratégica,

A adaptação ao calor urbano exige uma abordagem combinada entre planeamento, políticas climáticas e justiça social, dado o maior impacto em populações vulneráveis.

Neste contexto, a adaptação é essencial para prevenir, a curto prazo, os impactos diretos e indiretos das alterações climáticas. A equipa liderada por Tiago Capela Lourenço, participa atualmente num projeto europeu chamado AdaptationHubs. Este projeto apoia a criação de um Hub de Adaptação em Portugal, ou seja, uma plataforma de articulação que visa, no âmbito da Missão para a Adaptação às Alterações Climáticas da União Europeia, aumentar a resiliência dos Estados-Membros, melhorar a coordenação, promover a partilha de soluções e reforçar a gestão dos riscos climáticos à escala nacional e local.

Reforçar a adaptação ao calor urbano é, assim, um passo decisivo para construir cidades mais resilientes, sustentáveis e preparadas para os desafios climáticos futuros.

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