A resistência aos antifúngicos representa uma ameaça crescente para a saúde pública a nível mundial. Um novo artigo científico publicado na revista Water Research alerta para o papel das águas residuais e da contaminação ambiental na emergência de fungos resistentes a antifúngicos na Ásia, um problema que poderá ter implicações significativas para a saúde pública global.
Os investigadores, liderados por João Brandão, do CE3C, adotaram uma abordagem "One Health", que reconhece a interligação entre a saúde humana, animal e ambiental. O estudo em questão descreve como a utilização de fungicidas na agricultura, o uso clínico de antifúngicos, os sistemas de tratamento de águas residuais e os ecossistemas aquáticos podem contribuir, em conjunto, para a disseminação da resistência antifúngica.
A Ásia é considerada uma região de alto risco, devido à conjugação de vários fatores, como o uso intensivo de antifúngicos agrícolas e a falta de infraestruturas adequadas para o tratamento de águas residuais, que não conseguem responder às necessidades causadas pela elevada densidade populacional.
O estudo analisa a presença de compostos antifúngicos do grupo dos azóis em vários recursos hídricos asiáticos, nomeadamente em rios, águas subterrâneas, efluentes de estações de tratamento de águas residuais e lamas de depuração. Em países asiáticos como a Índia ou a China, os níveis de concentração destes compostos excedem significativamente os valores considerados seguros, podendo favorecer o desenvolvimento de resistência em fungos patogénicos.
Além disso, as estações de tratamento de águas residuais podem funcionar como verdadeiros "reatores evolutivos", onde os resíduos de medicamentos antifúngicos provenientes de hospitais, habitações, indústria farmacêutica e agricultura criam condições favoráveis à seleção de microrganismos resistentes.
Este fenómeno poderá contribuir para o surgimento de estirpes difíceis de tratar, incluindo espécies clinicamente relevantes, como o Aspergillus fumigatus e a Candidozyma (Candida) auris, consideradas prioritárias pela Organização Mundial de Saúde.
Para além de sintetizar os dados disponíveis sobre a contaminação ambiental na Ásia, o estudo identifica importantes lacunas nos atuais sistemas de vigilância e regulação. Os autores defendem a necessidade de integrar a resistência antifúngica nos programas de monitorização da qualidade da água, de reforçar a vigilância ambiental e de promover estratégias coordenadas entre países, a fim de reduzir a disseminação destes microrganismos resistentes.
Este trabalho reforça a importância de considerar o ambiente como um elemento central na prevenção da resistência aos antimicrobianos. Ao evidenciar a ligação entre a contaminação das águas e a emergência de fungos resistentes, o estudo contribui para o desenvolvimento de políticas de saúde pública e gestão ambiental mais eficazes à escala internacional.”
João Brandão
A integração da saúde ambiental, humana e animal numa abordagem "One Health" será, assim, essencial para antecipar os riscos e desenvolver estratégias mais eficazes para travar a disseminação da resistência antifúngica.
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