A floresta nativa dos Açores continua a ser símbolo de resistência da biodiversidade, mostra estudo internacional realizado ao longo de mais de 20 anos e que foi desenvolvido por investigadores do CE3C (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pela Universidade dos Açores. O estudo mostra que as comunidades de artrópodes (grupo de pequenos animais que inclui insetos ou, até, crustáceos) das florestas nativas açorianas resistiram melhor do que o esperado – alertando, ainda assim, para a necessidade de continuar e reforçar a conservação das espécies do solo em florestas pristinas.
As conclusões a que chega são fruto de amostras e informação recolhida entre 1999 e 2023 em 30 locais padronizados, distribuídos por 15 fragmentos de floresta nativa em sete ilhas dos Açores. Para este estudo foram consideradas 30 mil observações pertencentes a 405 espécies de artrópodes, sendo 91 delas endémicas dos Açores.
Sob análise estavam tanto as comunidades de artrópodes do solo – amostradas através de armadilhas de queda – como as comunidades cujo habitat está acima do solo, nas árvores (amostradas por batimento das respetivas copas).
Num contexto global em que o declínio dos insetos e de outros artrópodes tem gerado forte preocupação científica e pública, os resultados obtidos nos Açores acrescentam uma perspetiva importante: nem todas as comunidades de insetos seguem uma trajetória uniforme de colapso, sobretudo quando os habitats nativos ainda se mantêm protegidos.
O estudo mostra uma forte variabilidade temporal, com cerca de 28% das espécies a apresentarem declínios significativos, 17% a aumentarem e mais de metade (55%) a manterem-se estáveis.
Apesar deste sinal de esperança, os autores alertam que a situação não deve ser interpretada como ausência de risco. Algumas espécies de grande importância conservacionista continuam a mostrar sinais preocupantes, e sete espécies endémicas raras não foram reencontradas ao longo de mais de 20 anos de amostragem, sendo consideradas provavelmente extintas – ou seja, continuam a existir ameaças importantes para a biodiversidade insular.
Este estudo amplo e ambicioso foi liderado pela Universidade dos Açores em colaboração com outras instituições internacionais. Entre os autores encontra-se Paulo Borges, investigador do CE3C baseado na Universidade dos Açores e coordenador do projeto BALA, que sustenta este trabalho.
Este estudo sintetiza mais de 25 anos de trabalho de campo, laboratório, identificação taxonómica e colaboração científica internacional. A principal mensagem é que proteger a floresta nativa funciona, mas não basta: é necessário manter a monitorização a longo prazo e atuar de forma dirigida sobre as espécies e habitats mais vulneráveis.”
Paulo Borges
A estabilidade observada nas florestas nativas açorianas poderá estar associada à proteção legal e aos esforços de conservação desenvolvidos nas últimas décadas – o que é uma boa notícia. Mas a mensagem final é clara: a floresta nativa dos Açores continua a ser um refúgio essencial para a biodiversidade única do arquipélago, mas o seu futuro depende de proteção ativa, monitorização contínua e investimento científico de longo prazo.
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