Quando uma espécie rara persiste numa floresta alterada pelo ser humano, isso significa que encontrou um refúgio duradouro ou que a sua população está a caminho de desaparecer? É esta uma das questões centrais do LAST-ISLANDS – Legacy tAxa Survivors in Transitional ISLAND Systems, projeto científico que arranca nos Açores no final de setembro e que pretende compreender em que condições espécies nativas e endémicas conseguem persistir em florestas exóticas e outros habitats em transição.
O projeto é liderado pelo Grupo de Biodiversidade dos Açores, da Universidade dos Açores, integrado no CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, e coordenado pelo investigador Paulo Borges. Com uma duração de 36 meses, o LAST-ISLANDS conta com um apoio financeiro de até 300 mil euros da Fundação Belmiro de Azevedo, através de um protocolo de colaboração com a Fundação Gaspar Frutuoso e a Universidade dos Açores.
O LAST-ISLANDS parte de uma questão com implicações diretas para a conservação da biodiversidade: as florestas exóticas e os habitats em transição podem funcionar como verdadeiros refúgios para espécies nativas ou estarão apenas a conservar populações residuais que poderão desaparecer no futuro? O projeto pretende distinguir entre populações com capacidade de persistência e populações isoladas que poderão estar sujeitas a uma denominada “dívida de extinção”.
A investigação terá como referência os dados já existentes e concentrados na ilha Terceira e será alargada às ilhas de São Miguel, Santa Maria, São Jorge, Pico e Flores, abrangendo diferentes contextos de floresta exótica e habitats em transição. O estudo dará particularatenção a aranhas, escaravelhos e briófitos, como os musgos, integrando dados ecológicos, paisagísticos, taxonómicos e genéticos. Ao longo do projeto, a equipa procurará identificar quais as características da paisagem e dos habitats que favorecem a persistência destas espécies e avaliar o papel de fatores como a dimensão e conectividade das manchas florestais, a estrutura da vegetação, a humidade e a proximidade de áreas de floresta nativa. Os resultados serão utilizados para desenvolver modelos e mapas de apoio à decisão, capazes de indicar áreas onde a restauração, a conectividade ecológica ou a monitorização poderão ser prioritárias. Para além da produção científica, o LAST-ISLANDS prevê a disponibilização de dados em acesso aberto, publicações científicas, recomendações para a conservação e uma exposição dedicada à biodiversidade “escondida” que persiste nas paisagens transformadas dos Açores.
O projeto pretende, assim, contribuir para uma compreensão mais integrada da biodiversidade dos Açores e fornecer evidência científica que apoie futuras decisões de conservação, nomeadamente na gestão de habitats, na restauração ecológica e no reforço da conectividade entre áreas naturais.
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