Um estudo liderado por investigadores do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), e do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Ispa – Instituto Universitário) em colaboração com as Falklands Conservation, revela que as duas maiores colónias conhecidas de moleiro-das-falkland (Stercorarius antarcticus antarcticus) seguiram trajetórias populacionais opostas ao longo dos últimos 14 anos. Os resultados foram publicados na revista Polar Biology.
Entre 2009 e 2023, os investigadores monitorizaram populações reprodutoras em 18 ilhas do arquipélago das Falkland (Malvinas), no Atlântico Sul, ao largo da costa da Argentina. A colónia de New Island, anteriormente a maior conhecida, registou um declínio de 26%, passando de 333 para 246 territórios ocupados. Em contraste, a população de Steeple Jason Island aumentou 50%, de 222 para 332 territórios, tornando-se atualmente a maior colónia conhecida da espécie.
Foi surpreendente verificar que, em pouco mais de uma década, as duas maiores colónias inverteram a sua posição relativa em termos de dimensão populacional. Estes resultados mostram que diferentes populações da mesma espécie, mesmo quando nidificam em ilhas relativamente próximas, podem estar sujeitas a diferentes pressões ambientais, resultando em tendências populacionais distintas. Este estudo reforça a importância de monitorizar várias colónias ao longo do tempo para compreender melhor os fatores que moldam a dinâmica das populações e apoiar a conservação da espécie."
Edna Correia, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo.
Os investigadores sugerem que estas diferenças poderão estar relacionadas com a disponibilidade de alimento e com o sucesso reprodutor. O moleiro-das-falkland é uma ave marinha predadora e oportunista que se alimenta de peixes, ovos e crias de outras aves, bem como de carcaças de animais marinhos. Alterações na disponibilidade destes recursos podem influenciar o seu sucesso reprodutor e a evolução das populações.
Em Steeple Jason Island, o crescimento da população poderá estar associado ao estabelecimento recente de uma colónia reprodutora de lobos-marinhos-sul-americanos (Arctocephalus australis), que disponibiliza novas fontes de alimento, como carcaças e placentas. Já em New Island, os investigadores observaram uma maior proporção de ninhos vazios e de posturas com apenas um ovo, indicadores de menor sucesso reprodutor. Os autores apontam ainda como possíveis fatores a competição por alimento com ao caracara-estriada (Daptrius australis) e um eventual declínio do fura-bucho-de-bico-fino (Pachyptila belcheri), uma pequena ave marinha que constitui uma das principais presas do moleiro-das-falkland.
Embora o moleiro-das-falkland esteja atualmente classificado como espécie "Pouco Preocupante" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), estudos genómicos recentes sugerem que estas aves estão mais próximas do moleiro-chileno (Stercorarius chilensis) do que se pensava anteriormente. Esta revisão da classificação taxonómica implica que a sua distribuição e população global poderão ser mais reduzidas, reforçando a importância das Ilhas Falkland para a conservação desta ave marinha.
O estudo revelou ainda que, embora a maioria dos indivíduos regresse para se reproduzir na colónia onde nasceu, existe alguma dispersão entre ilhas. Este comportamento poderá contribuir para explicar o crescimento de colónias com condições ecológicas mais favoráveis e reforça a importância de acompanhar várias populações em simultâneo para compreender a dinâmica da espécie.
O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), através do financiamento estratégico atribuído ao CE3C e ao MARE, e pelo Governo das Ilhas Falkland, através do Environmental Studies Budget.
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