O rolieiro está a recuperar em número, mas a perder território. A conclusão é de um estudo levado a cabo por um grupo de investigadores portugueses, nomeadamente Teresa Catry, investigadora do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que mostra que, apesar de a população nacional desta ave ameaçada ter crescido cerca de 26% desde 2009, o rolieiro perdeu aproximadamente 67% da área onde se reproduzia.
Publicada na revista científica Ardeola, a investigação reúne mais de duas décadas de monitorização da espécie em Portugal e constitui o mais longo conjunto de dados alguma vez compilado sobre o rolieiro no país. Os investigadores analisaram cerca de 650 tentativas de nidificação, dados de captura e recaptura de mais de 1.500 aves anilhadas e censos nacionais da espécie, permitindo avaliar a evolução da população, o sucesso reprodutor e os fatores associados à sua recuperação.
Associado às paisagens agrícolas abertas do Alentejo, o rolieiro (Coracias garrulus) é uma ave estepária migradora que depende de habitat adequado para se alimentar e de cavidades para nidificar. Em Portugal, está classificado como Criticamente em Perigo e a sua população está atualmente estimada entre 72 e 82 casais reprodutores.
Os resultados mostram que a espécie se encontra hoje fortemente concentrada no Baixo Alentejo. Segundo o estudo, 96% da população nacional reproduz-se na Zona de Proteção Especial de Castro Verde, enquanto fora desta região foram registados apenas três casais, localizados nas Zonas de Proteção Especial de São Vicente e Vila Fernando.
Esta concentração reflete a importância das medidas de conservação implementadas ao longo das últimas décadas. Atualmente, 81% dos casais em Castro Verde utilizam ninhos artificiais, instalados para compensar a falta de cavidades naturais adequadas à reprodução.
Este estudo mostra que medidas de conservação consistentes e mantidas ao longo do tempo podem ter um impacto muito positivo na recuperação de espécies ameaçadas. No caso do rolieiro, a instalação de ninhos artificiais e a gestão do habitat contribuíram para o aumento da população em Castro Verde. Mas os resultados também mostram que esta recuperação continua vulnerável, porque a espécie permanece muito concentrada numa única região e depende da continuidade destas ações".
Teresa Catry
Apesar da evolução positiva do número de aves, a forte concentração geográfica da população aumenta a sua vulnerabilidade a alterações locais do habitat e a espécie demonstra uma capacidade reduzida para recolonizar áreas onde desapareceu.
A baixa capacidade de dispersão ajuda a explicar esta dificuldade. Os investigadores verificaram que as aves jovens se estabelecem, em média, a apenas 9,7 quilómetros do local onde nasceram, enquanto os adultos que mudam de local de reprodução o fazem numa distância média de apenas 2,5 quilómetros.
Apesar de as medidas de conservação terem tido um impacto positivo, a espécie continua vulnerável por estar muito concentrada geograficamente e altamente dependente da disponibilização de ninhos artificiais. O desafio passa agora por manter o sucesso alcançado em Castro Verde e, ao mesmo tempo, criar condições para que o rolieiro possa voltar a ocupar outras áreas do país. A monitorização a longo prazo é essencial para perceber se as medidas estão a funcionar e para ajustar as estratégias de conservação sempre que necessário”
Teresa Catry
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