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Serra de Santa Bárbara, Ilha Terceira, Açores. Fotografia de Paulo Borges

Durante milhares de anos, as ilhas foram refúgios únicos de vida, espaços onde espécies evoluíram de forma extraordinária, isoladas do resto do planeta. Mas o que hoje encontramos nestes ecossistemas já não é apenas o resultado da natureza.

Com o objetivo de compreender como a presença humana tem transformado os ecossistemas insulares, uma equipa internacional liderada por Thomas J. Matthews, investigador da Universidade de Birmingham e colaborador do CE3C, analisou as alterações na biodiversidade das ilhas em todo o mundo. O estudo, publicado na revista Science Advances, contou também com a participação dos investigadores do CE3C, Paulo Borges e Pedro Cardoso, e mostra que a biodiversidade insular atual resulta da interação entre processos ecológicos e evolutivos naturais e uma longa história de influência humana.

Este impacto humano vai muito além da perda de espécies. Alterou a forma como os ecossistemas funcionam, desde a composição das comunidades até às interações entre espécies, como a polinização ou a dispersão de sementes. Segundo os investigadores, isto significa que considerar apenas a biodiversidade atual pode conduzir a interpretações erradas sobre o funcionamento "natural" destes sistemas.

Priolo (Pyrrhula murina). Fotografia de Paulo Borges

O estudo demonstra que as ilhas não podem ser consideradas meros  laboratórios naturais intocados. Para compreender a sua biodiversidade e conservá-la de forma eficaz, temos de ter em conta tanto os processos naturais de longo prazo que deram origem às suas espécies únicas, como as profundas pressões humanas que remodelaram os ecossistemas insulares."

Paulo Borges

Um dos aspetos mais relevantes do estudo é a demonstração de que, apesar de muitas ilhas possuírem atualmente um número de espécies semelhante ou superior ao existente antes da chegada dos seres humanos, a diversidade de espécies diminuiu. Este aparente aumento resulta sobretudo da introdução de espécies não nativas. Embora estas introduções possam compensar numericamente as perdas causadas pelas extinções, não substituem as funções ecológicas nem a singularidade evolutiva das espécies desaparecidas. Como consequência, os ecossistemas insulares tornaram-se mais homogéneos e perderam parte da sua identidade biológica.

Os autores defendem também que compreender a biodiversidade atual das ilhas exige uma reconstrução das condições pré-humanas, com recurso a evidências provenientes da paleontologia, arqueologia, história e ecologia. Só assim será possível distinguir os padrões naturais das alterações causadas pelas atividades humanas e desenvolver estratégias de conservação mais eficazes.

Para regiões insulares como os Açores, o estudo realça a importância da monitorização a longo prazo da biodiversidade, de coleções biológicas bem conservadas, de dados abertos sobre biodiversidade e da proteção e restauração sustentadas dos habitats nativos. Compreender o que mudou é um passo necessário para salvaguardar o que ainda resta.

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